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Clipping - Gaúcha ZH - Como e quando contar aos filhos que o casamento chegou ao fim
Especialistas alertam que um olhar atento aos filhos é fundamental antes, durante e depois do processo

Quarenta anos após a instituição da lei do divórcio no Brasil, um a cada três casamentos termina em separação no país. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o número de dissoluções disparou com o passar dos anos: somente na última década, a taxa cresceu 160%. Mesmo com as estatísticas apontando para uma ascensão meteórica de rompimentos, decidir terminar uma relação nunca é simples. E quando há filhos no meio, o assunto se torna ainda mais delicado. Saber como conversar com as crianças, em que momento abordar e de que forma tratar a questão é fundamental para que o processo se torne menos doloroso.

– Quanto mais a verdade puder ser falada levando-se em consideração a capacidade psíquica e a maturidade da criança, quanto mais os pais puderem explicar para os filhos que a relação chegou ao fim mas que, como pais, vão seguir cumprindo suas funções, melhor. Só que os adultos não podem ter a expectativa de que os filhos vão aceitar a nova situação de uma hora pra outra. A forma como a criança processa a informação e o tempo que leva dependem da maturidade dela, e isso não está diretamente relacionado à idade – alerta a psicanalista Kátia Radke, diretora de Divulgação em Ações com a Comunidade da Sociedade Psicanalítica de Porto Alegre (SPPA).

É o que acredita também a advogada especialista em Famílias e Sucessões Paula Britto, autora do livro Manual da Separação – Guia Prático, Funcional e Acolhedor. Para Paula, muitos pais esperam o filho chegar a uma determinada idade para anunciar o fim do casamento por acreditar que, quanto mais velho, melhor preparado ele estará para lidar com a situação. Esse tipo de comportamento acaba por gerar mais complicações do que benefícios, segundo a especialista:

– Essa não é uma boa fórmula. Primeiro, porque os filhos acabam tendo de conviver desnecessariamente com a relação desgastada dos pais. Segundo, porque, às vezes, temos crianças menores muito mais estruturadas do que um adolescente para lidar com o fato, isso depende muito da estrutura psíquica e emocional de cada um. O momento ideal de anunciar a separação está muito mais relacionada à decisão dos pais de terminar o casamento do que à idade do filho.

Embora a banalização do divórcio tenha tornado mais fácil falar sobre separação com as crianças – já que provavelmente elas convivem na escola ou outros ambientes com coleguinhas que tem seus pais separados – especialistas alertam que um olhar atento aos filhos é fundamental antes, durante e depois do processo de reestruturação familiar.

O processo de decisão
A separação dos pais é um momento que normalmente vem acompanhado de muitas angústias, ansiedade e mudanças na vida da família e, consequentemente, da criança. Por isso, especialistas alertam que o ideal é poupar os filhos durante o processo de decisão sobre um possível rompimento, já que muitas vezes ele pode não ocorrer.

– Na medida do possível, as conversas devem ser restritas ao casal e, somente quando a decisão estiver tomada e algumas questões práticas definidas, falar para os filhos. Assim, se evita intoxicar as crianças com os conflitos do casal e evitar que ocorra uma busca de aliança com um ou outro genitor. Isso pode gerar angústias desnecessárias sobre desavenças que acabarão sendo resolvidas entre o casal. Além disso, quanto mais o casal puder resolver em termos conjugais e menos invadir a questão paterna e materna, melhor – explica Kátia Radke, da SPPA.

Foi pensando nesta dinâmica que a funcionária pública Claudine de Aragão Cabral, 52 anos, decidiu, ao lado do então marido, anunciar o divórcio para os filhos somente depois de longos meses de conversa, em que ambos perceberam a impossibilidade de manter a relação. Durante este período, as crianças foram poupadas das dúvidas que o casal tinha em relação ao futuro.

– Quando começamos a ter um olhar sobre o desgaste do casamento, passamos a conversar sobre o que fazer e isso durou em torno de seis meses, até que decidimos que a separação era o melhor. Foi somente quando chegamos a essa definição e que algumas coisas práticas estavam organizadas, como quem iria sair de casa, de que forma iríamos organizar a rotina, que comunicamos aos nossos filhos, um casal de gêmeos que à época tinha nove anos – conta.

Para a advogada Paula Britto, a iniciativa de resolver previamente as questões práticas da rotina das crianças na nova configuração familiar, ainda que esta nova rotina seja temporária, é fundamental pois as ajuda a elaborar como será a vida e evita que fiquem fantasiando muito sobre cenários futuros.

O momento da conversa
Uma vez que a decisão do divórcio estiver tomada, é melhor conversar com as crianças o quanto antes – mesmo porque dificilmente elas não vão perceber que algo está acontecendo. Neste momento, o ideal é que os pais sentem juntos com os filhos e mantenham o foco no acolhimento e na compreensão.

– Se os pais estiverem em uma situação não litigante, o ideal é dizer aos filhos que a relação marido e mulher chegou ao fim, mas que a situação deles como pais se manterá o mais parecida possível com o que é hoje, que ambos seguem sendo pai e mãe – explica a psicanalista Kátia Radke.

É claro que, nos casos em que existe um rancor muito grande, fica mais difícil comunicar essa decisão conjuntamente. Mesmo assim, a recomendação é poupar as crianças dos detalhes. Para Kátia, neste momento é importante evitar expor a situação íntima do casal aos filhos e filtrar aquilo que será dito, pois é preciso separar as funções conjugal e paterna.

– O que se espera, de um modo geral, é que os pais possam acolher a dor e o sofrimento da criança e do adolescente diante da quebra de um projeto de vida que é o de ter os pais unidos para sempre. Mas, para isso, é preciso pensar no que falar, sempre de acordo com as condições de cada filho. A verdade, nas doses necessárias, é superimportante – explica.

E se alguém chorar? Isso não deve ser motivo de vergonha nem para os pais nem para as crianças, já que a tristeza e a dor são condições eminentes do processo de separação.

– Mesmo quando os pais estão conectados em dividir a situação da forma mais verdadeira, deixando a dor vir, a separação pode aparecer para a criança como uma surpresa. Na hora, adolescentes normalmente fazem perguntas mais objetivas porque tem mais clareza sobre o que é a separação na prática, e os pais devem estar dispostos a responder aquilo que souberem sobre o futuro – explica a advogada Paula.

Na experiência da funcionária pública Claudine de Aragão Cabral, deixar claro para os filhos que seria normal que a partir do anúncio do divórcio eles teriam muitas dúvidas, medos e inseguranças foi fundamental para deixá-los à vontade na hora de perguntar sobre a nova situação e aliviar as ansiedades que surgem no primeiro momento:
– Na hora eles ficaram surpresos e tristes. Perguntaram se era mesmo verdade e se isso poderia mudar, coisas nessa linha. Naquele momento tive claro que precisava dizer que eles podiam confiar em nós, que como pais podíamos garantir que o divórcio não iria afetar nossos papeis. Seríamos sempre pai, mãe e filhos.
Continuaríamos junto deles em tudo e que esta nova fórmula de família também poderia ser feliz. Essa abertura de canal para conversa e perguntas deles surtiu efeito.

Entretanto, especialistas afirmam que, apesar da disposição dos pais para apoiar os filhos, as reações das crianças podem ser as mais diversas, e por isso ter uma rede de proteção e acolhimento ao redor dela é fundamental.

Tenha uma rede de proteção
O rompimento do projeto de uma família unida e feliz pode trazer muitas fantasias para as crianças, que vão desde a culpa pela separação do casal até a possibilidade de um afastamento definitivo com o pai ou a mãe. De acordo com a psicanalista Kátia Radke, as reações dos filhos e as ideias que eles passam a nutrir dependem muito, também, do suporte que encontram no seu entorno:
– Alguns se rebelam, outros recalcam o que estão sentido, outros negam e por vezes desenvolvem sintomas somáticos. Espera-se que algum tipo de demonstração as crianças tenham, e entre elas estão sintomas depressivos, distúrbios do sono, entre outros, porque há um desejo universal de manter os pais juntos. Por isso, é preciso que se estabeleça uma rede de proteção para ajudar a dar suporte à criança.

Avisar a escola sobre a separação e pedir para os professores ficarem atentos a possíveis mudanças de comportamento da criança, além de alertar os parentes mais próximos sobre a situação é fundamental para que os adultos, juntos, possam perceber de que forma a criança está lidando com a nova realidade. Nos casos em que sejam identificadas dificuldades maiores, os pais não devem hesitar em buscar ajuda de um profissional de saúde mental.

Segurança na nova configuração
Passada a turbulência inicial de um processo de divórcio, que inclui a saída de um dos pais de casa, a mudança na rotina da criança e o estabelecimento de uma nova configuração familiar, muitos pais acabam “baixando a guarda” em relação aos filhos. Para a advogada especialista em Famílias e Sucessões Paula Britto, entretanto, este é exatamente o momento de redobrar a atenção com os pequenos:
– Aqui estamos falando de um segundo período, em que é importante que pai e mãe se façam bastante presentes, principalmente aquele membro do casal que sai de casa. Buscar no colégio, levar em atividades extraclasse e tentar preservar ao máximo a rotina que a criança tem fora de casa é fundamental para deixá-la mais segura de que as funções de pai e mãe irão se manter.

Na casa da funcionária pública Claudine de Aragão Cabral, a preocupação em manter um olhar mais cuidadoso sobre os filhos durante os primeiros anos após o divórcio trouxe resultados positivos:
– Deixamos claro que às vezes as relações entre os adultos se dissolvem por motivos que eles entenderiam melhor no futuro, mas ao longo desses dois anos de divórcio estamos nos mantendo muito participativos da vida deles de maneira equilibrada, para mostrar que o pai e mãe continuam existindo.

Hoje, dois anos depois da separação, ela acredita que permitir que os filhos sofressem e manter um forte suporte ao redor deles foi fundamental para que se adaptassem à nova realidade.

– Se precisava chorar junto, a gente chorava junto. A gente sabia que era só uma etapa a cumprir. E agora estamos prontos e mais fortes para seguir nossas vidas – conclui.

Fonte: Gaúcha ZH


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